Hoje tem!

segunda-feira, maio 17, 2010 6 comentários

Cineclube convida espectadores para o debate

Toda segunda-feira, às 19h, pontualmente, o Teatro Ferreira Gullar abre as portas para a exibição de sessões de cinema. Desde 2001, o Projeto
Cinema no Teatro apresenta obras fílmicas que não são facilmente encontradas nas locadoras ou na única sala de cinema da cidade. Clássicos, filmes que estão fora do circuito comercial, produções locais, produções alternativas, filmes nacionais, etc. A variedade de temas escolhidos pode ser entendida como um meio de democratizar o acesso à Sétima Arte. No entanto, engana-se quem pensa que o filme é a única atração da noite. O xou começa quando o técnico do teatro acende as luzes... É hora do debate!

Um convite à reflexão, o debate possibilita a expressão de diferentes pensamentos no mesmo lugar. Há quem se identifique com a trama, há quem rejeite as personagens, há quem se encante com o enredo. Uns falam, outros escutam. Os papéis se invertem a todo momento. Os participantes que têm técnica, conhecimento, gosto apurado contracenam com os que mal sabem pronunciar o nome de tal diretor: “Kieślowskio o quê?” O Cinema no Teatro garante a manifestação de pensamento e a pluralidade de vozes.

Também é possível observar que, no decorrer dos anos, o público se ampliou. Não só em quantidade, mas em representatividade. As poltronas já não são mais ocupadas pelos cinéfilos, cults, cdf´s e os que estampam a estrela de Guevara. É cada vez mais notória a presença de católicos, protestantes, ateus, socialistas, neo-liberalistas, anarquistas, apartidários e à-toas. Gente com noção. Gente sem noção. E o mais importante, todos cheio de argumentos, numa linguagem acessível, onde é aceitável a informalidade e o uso de gírias.

O filme possibilita autoconhecimento. Godard, Buñuel, Fellini até Carlos Henrique Brandão são minuciosamente apreciados e analisados. Os espectadores lançam olhares sobre amizade, amor, paixão, separações, drama familiar e rupturas que fazem parte da trajetória humana. Questões políticas, sociais, econômicas são relacionadas à vivências individuais. As opiniões revelam o processo de catarse de quem fala. Dessa forma, a riqueza é não existir ponto central no debate. Na discussão há prós e contras, mas não há vencedores nem vencidos.

E não pára por aí, a organização do cineclube utiliza as redes sociais como mecanismos de promoção e participação popular. Para dar continuidade ao debate e ampliar a participação daqueles que ainda não se sentem tão à vontade para falar, mas conseguem escrever em 140 ou mil caracteres, os perfis no Twitter, Blogspot e Orkut podem ser facilmente encontrados. Tem espaço para todos. Por essas e outras, o Projeto Cinema no Teatro merece aplausos e um grito de Bravo!






(Tanta violência, mas tanta ternura)

quinta-feira, maio 13, 2010 3 comentários

A dinamicidade das imagens em “Terra em Transe”

A realidade social da América Latina, marcada por desigualdades, é a temática abordada no longa-metragem “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. A estrutura narrativa do filme é crítica. É possível observar a arte engajada do cineasta, que propõe uma reflexão sobre a política e o processo social dos países subdesenvolvidos. Utilizando o flash-back narrativo, o diretor volta no tempo para explicar, por meio do passado, certas atitudes das personagens. Logo no início do filme, é apresentada uma visão aérea do oceano. A câmera corre lateralmente. Essa varredura, da esquerda para a direita, desloca rapidamente a imagem e sugere a imensidão das angústias e ações do homem. Dessa forma, a personagem principal vai revendo e ressignificando os acontecimentos e suas visões de mundo.

Raramente vemos a câmera parada no filme. Essa movimentação caracteriza a dinâmica da narrativa. Espaços amplos como o mar, o céu, o deserto. A busca pelo vôo alto e o mergulho profundo são cobertos por vários ângulos no momento da filmagem. Isso estabelece uma interação entre os espaços, ações e personagens. Quando um grupo de pessoas conversa, num lugar aberto, a câmera acompanha os movimentos. Esse deslocamento reitera a idéia de diálogo. Como a seqüência dramática é determinada pelo lugar e pelo tempo, a alternância nos planos sugere a dinamicidade do filme.

A câmera fixa traz o efeito de movimento psicológico e não fisiológico. Em vários momentos, o poeta Paulo (protagonista do enredo), se encontra parado, mas com a cabeça envolta à pensamentos angustiantes e, muitas vezes, anárquicos. Em função dele, organiza-se a narrativa. As características psicológicas, físicas e sociais que formam a personagem, são utilizadas por Glauber Rocha como composição da estrutura dramática, captada pelas modificações dos planos. Há cenas externas, filmadas ao ar livre, e cenas em casarões, na redação do jornal, na rua. O enredo mostra a transição da protagonista do interior para a capital. Lugares mais representativos da cidade servem como pano de fundo para o desenrolar da história.

O conflito das personagens representa o embate entre as forças (físicas e intelectuais) do povo e de quem está no poder. Com isso, “Terra em Transe” é marcado pela espetacularização de cenas do cotidiano. A câmera é tratada como "participante da ação". As personagens olham diretamente para a lente, dando a impressão que o telespectador também participa da cena. A ficção a partir de um tema real é aproximada de planos que remetem proximidade, distanciamento, imposição, submissão, etc. Como exemplo, a câmera acima da multidão que acompanha o político populista dá a idéia de vigilância. Todos caminhando em mesma direção, como numa boiada. São imagens que sugerem liberdade, mas são dominadas. A câmera é o boiadeiro que não permite a fuga de um dos animais. Já com o político no palanque, proferindo um discurso cheio de promessas, é possível visualizar a câmera se posicionando abaixo do candidato. Isso remete à submissão da população.


O diretor não utiliza apenas os recursos dos planos feitos em plongée, de cima para baixo, e contra-plongée, de baixo para cima. O Close-up enfatiza um detalhe, pormenorizando uma ação. Ao enquadrar apenas a cabeça, detalhes do rosto das personagens, as expressões faciais se tornam bastante nítidas, aumentam a carga de dramaticidade da cena. A utilização da trilha musical também se dá de forma muito significativa. As músicas que são utilizadas servem de pano de fundo para as imagens, mas não têm significação própria. Há momentos que o ritmo serve apenas como interseção dos fatos. A posição ocupada pelas pessoas à frente dos demais elementos que compõem o enquadramento da cena, pode ser representada nos diálogos entre Paulo e a professora Sara. Ao mesmo tempo que dialogam, dramatizam os sentimentos. Por isso, a câmera alterna entre emissor e receptor no primeiro e segundo planos. Em outra situação, na hora da valsa, a câmera em movimento acompanha o bailado das personagens. O “travelling” escolta os passos na mesma velocidade.

Na obra, é nítida a intenção de mostrar a arte como algo contestador e essencial no processo de conscientização. O povo precisa de poesia e política. Por isso, Paulo usa as palavras como forma de combate ao sistema opressor. A união perigosa de interesses pessoais e poder é a materialização do “transe” da Terra. Essa conjuntura perigosa impossibilita a inversão da desigualdade. Nessa perspectiva, o desespero toma conta da protagonista. Uma das cenas mais reveladoras é apresentada com a citação do poema “Balada”, de Mário Faustino. A parte da imagem é atribuída a outro elemento da arte, a literatura.

“Não conseguiu firmar o nobre pacto

Entre o cosmo sangrento e a alma pura

Porém, não se dobrou perante o fato

Da vitória do caos sobre a vontade

Augusta de ordenar a criatura

Ao menos: luz ao sul da tempestade.

Gladiador defunto mas intacto

(Tanta violência, mas tanta ternura)”

Na última cena, Paulo se encontra num deserto. Ele está sozinho na luta pelos próprios ideais. Sendo assim, a perspectiva tem expressão simbólica. A voz que se cala em meio ao silêncio da solidão. A câmera lentamente se afasta. O distanciamento representa a explícita desistência em romper com os padrões vigentes na sociedade. Para ele, o mesmo que a morte.

quarta-feira, maio 12, 2010 0 comentários

Criatividade e talento na arte que vem da rua

Numa arena improvisada na Avenida Beira Rio, o público aguarda ansioso o início do espetáculo pré-anunciado. Assim que o sol se põe no sábado, eis que surge de uma Kombi colorida a palhaça desengonçada, Keke Kerubina, que trazia consigo uma mala enquanto badalava um sino. A apresentação de Circo e Teatro de Rua, Circuluz Brincante, marca o encerramento dos três dias da Oficina Circularidades, realizada entre os dias 04 e 06 de maio em Imperatriz.

O ponto de apresentação, voltado para as margens do rio, é o encontro da arte com a nossa maior riqueza, o Tocantins. Durante a programação, a plateia se relacionou com diferentes linguagens cênicas: música, teatro e dança. Para o estudante de Comunicação, Erisvan Bone, as manifestações alternativas de cultura possibilitam maior opção para a comunidade. O teatro na rua pode ser conferido gratuitamente. Muitos que passavam pela Beira Rio, pararam pra dar uma espiada.

Em Circuluz Brincante, o diálogo entre a comicidade, cultura popular maranhense e habilidades circenses relevam o espectador como um brincante. Durante momentos mágicos e de grande animação, o público divide o palco com Keke. Os números de malabarismos – com ou sem fogo -, a acrobacia aérea no tecido, dança e nas palhaçadas, a comunicação é direta e a interação é visivelmente bem vinda. A palhaça nomeia os participantes de artistas olímpicos da rua.

Deve-se ressaltar, ainda, que as manifestações folclóricas da cultura popular maranhense são divulgadas pelo trabalho de toda a equipe do espetáculo. O economista mineiro, Wilson José Jr., assistiu à apresentação com a esposa e os filhos e afirmou que o projeto difunde e preserva a cultura maranhense. O pungado, que remete ao Tambor de Crioula, foi convite para entrar na roda. A ciranda encerrou a apresentação que teve cinqüenta minutos de duração, aproximadamente.

Projeto de Circulação - A Oficina Circularidades – Circo e Teatro de Rua, ministrada pela atriz e palhaça Raquel Franco, é fruto da pesquisa desenvolvida pela atriz, a partir do imaginário simbólico e social que envolve a ocupação dos diferentes espaços circulares. A partir disso foram delimitados o teatro de rua, o circo e a cultura popular como ponto de partida destas experimentações e pensamentos. Patrocinado pela Funarte – com o prêmio Miriam Muniz, o projeto circula por algumas cidades do Maranhão e, em Imperatriz, é apoiado pela Fundação Cultural e pela Casa das Artes.

De acordo com a representante da Fundação Cultural de Imperatriz, Lilia Diniz, a primeira apresentação realizada no Bairro Vila Cafeteira, na sexta-feira, reuniu cerca de 250 pessoas. Por meio do prêmio Funarte de Teatro Miriam Muniz, o projeto circulou por São Bento, Arari, Açailândia e Imperatriz. A trupe segue para ministrar oficinas em Balsas nos dias 11, 12 e 13 de maio.

segunda-feira, maio 10, 2010 2 comentários


Desapego não é Desamor