Cante lá que eu canto cá

terça-feira, setembro 22, 2009 3 comentários


Centenário de nascimento do poeta popular Patativa do Assaré



“O meu nome é Antonio Gonçalves da Silva. Nasci no dia 5 de março de 1909, no sítio Serra de Santana, município de Assaré, Ceará. Sou filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. O meu pai, um pobre agricultor, morreu muito moço, quando eu tinha apenas oito anos de idade. Somos cinco irmãos: Antonio, José, Pedro, Juaquim e Maria. Ficamos órfãos em completa pobreza, continuando na mesma agricultura, trabalhando em um diminuto terreno que herdamos de nosso pai. Perdi a vista direita, no período de dentição, em consequência de uma moléstia conhecida por dor d’olhos. Embora eu tenha facilidade de fazer versos desde menino, nunca quis fazer profissão do meu dom poético. Até hoje tenho sido o mesmo pobre agricultor, morando na mesma Serra de Santana. Nunca passei um ano sem botar a minha rocinha, só não botei roça no ano em que fui ao Pará. Posso dizer que sou um apaixonado pela poesia, porém tenho a poesia como um passatempo ou distração na minha vida de pobre camponês, prezando desta maneira o meu dom. Os meus livros de poesia foram publicados por iniciativa de homens de letras, interessados pesquisadores da cultura popular. Sou quase analfabeto, li apenas o primeiro e o segundo livro do famoso professor didático Felisberto de Carvalho. Emprego minha rude lira cantando as coisas da minha terra e a vida da minha gente sofrida, pois acho que só assim poderei agradecer a Deus o dom que Ele me deu. Não sou político, sou apenas um simples poeta roceiro que fala contra as injustiças e quer a verdadeira democracia.”
Antonio Gonçalves da Silva (Patativa do Assaré), Assaré – 16 de abril de 1979



Assim, Patativa se autodefine na contracapa de seu primeiro LP. O disco "Poemas e Canções" foi dirigido e produzido por Raimundo Fagner, em 1979.


Clique aqui e veja o poeta declamando o cordel.

(3) Comments

  1. Isnande Barros On 22 de setembro de 2009 21:10

    Comentei e linkei tua nota.
    Maravilha, o bom e velho Patativa.
    Fagner bem o homenageou em 1980 com "Vaca Estrela, Boi Fubá".
    Parabéns pela lembrança.

     
    Junior On 23 de setembro de 2009 10:19

    Ao navegar pelo blog do Prof. Isnande, encontrei um atalho e me interessei pelo o assunto, pois adoro o nordeste e sua cultura. Fico feliz em saber que em uma só pessoa ainda se pode reunir qualidades fundamentais no ser humeno tais como sensibilidade e inteligencia, contracenando com uma beleza rara em um semblante de sensatez.
    Parabens!

     
    Gustavo On 24 de setembro de 2009 08:46

    Certa vez apareceu no Fantástico, um cidadão nordestino, totalmente analfabeto, todo tronxo, feio pra caramba. Quando perguntado quanto era 2714x3804, respondia com uma precisão espantosa. Sou admirador de carteirinha do Patativa. Já pensaram se pessoas como essas tivessem oportunidade de estudar. Êta Brasilzão de deserdados!!!!!